
Damián Ortega/ Concrete cube
Pessoas com quem dormi na mesma cama,
andei junto por um tempo, fui ao
supermercado, freqüentei a escola
primaria o ginásio o colegial,
umas pessoas dos poucos meses que
passei na faculdade, pessoas com quem
trabalhei, desconhecidos com quem
dividi a mesma casa o mesmo quarto, o
time de basquete, natal, ano novo, bares,
ruas, cafés da manhã em lugares estranhos,
lugares estranhos, pessoas estranhas
não sei como cheguei até aqui e
não consigo parar de pensar nessas
pessoas, nesses lugares e não consigo
parar de tentar encontrar alguma
espécie de ordem pra tudo isso, e
algum tipo de ordem que me faça fazer
parte de tudo isso, até que, é como uma
palavra que repetida várias vezes perde
totalmente o seu sentido, como paixão,
amor, sexo, como tudo que está fora da
ordem dentro da sua própria linha do tempo
espaços em branco parecem mais lógicos
do que qualquer outro espaço dentro
dessas imagens, como uma casa vazia em
um descampado, todas as portas e janelas
abertas, o telhado suspenso não
tocando as paredes, as próprias paredes
não encostam umas nas outras, o piso
suspenso, as lâmpadas todas fora do lugar,
o dia a luz o vento o vazio o branco, a
ausência da percepção do tempo fica
clara quando identificadas suas margens
tentei criar uma espécie de linha do
tempo baseado nos acontecimentos que
margeiam esses espaços vazios,
acontecimentos concretos que me trouxessem
até aqui, e o resultado foi um tempo que
dentro do seu próprio espaço estava fora da
ordem, então percebi estar errado ao crer em
ordem e espaço, ao crer que deveria preencher
esses espaços com acontecimentos concretos
dentro do tempo quando o vazio se oferece
branco, claro e limpo.
r.e
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