algumas posturas estranhas, lugares estranhos, objetos estranhos, tudo o que é perceptível por qualquer dos sentidos mas que não vai além de você ou de mim.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012



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A história que Seymour leu para Franny naquela noite, a luz da lanterna, era uma de suas prediletas, um conto taoísta. Até hoje Franny jura que se lembra de Seymour lendo para ela.


O duque Mu da China disse a Po Lo: “Você esta bem entrando em anos. Haverá alguém em sua família capaz de substituí-lo na tarefa de procurar cavalos para mim?”. Po Lo respondeu: “Um bom cavalo pode ser selecionado por sua aparência e constituição física. Mas o cavalo fora de série – que não levanta poeira nem deixa rastro – é algo evanescente e fugidio, tão intangível quanto o ar rarefeito. Os talentos de meus filhos situam-se em plano definitivamente inferior: reconhecem um bom cavalo quando o vêem, mas são incapazes de identificar um cavalo excepcional. No entanto, tenho um amigo chamado Chiu-Fang Kao, um vendedor de lenha e de legumes, que não fica nada a me dever em matéria de cavalos. Por favor, fale com ele”.

O duque Mu assim fez, enviando-o logo depois em busca de um cavalo. Passados três meses, ele voltou anunciando que o encontrara. “Esta agora em Sach’iu”, acrescentou. “Que tipo de cavalo é ele?”, perguntou o duque. “Ah, é uma égua baia”, foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o animal, verificou-se que era um garanhão negro como carvão! Muito contrariado, o duque mandou chamar Po Lo. “Esse seu amigo”, disse ele, “que contratei para encontrar um cavalo, meteu os pés pelas mãos. Ora bolas, não sabe nem distinguir a cor ou o sexo de um animal! O que é que ele pode entender de cavalos?”. Po Lo soltou um suspiro de satisfação. “Será mesmo que ele chegou a tal ponto?”, perguntou em tom excitado. “Ah, então ele é dez mil vezes melhor do que eu. Não há comparação entre nós. O que Kao tem em mira são elementos espirituais. Certificando-se do essencial, esquece os detalhes comezinhos; concentrando-se nas qualidades internas, perde de vista os sinais exteriores. Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver. Kao é tão sábio como avaliador de cavalos que deveria julgar alem de simples animais.”

Quando o cavalo chegou, provou ser extraordinário.


J.D. Salinger em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira.


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